A desigualdade que vem de berço...

Manu , uma de nossas alunas

Manu, uma de nossas alunas

Estou há quase quatro meses trabalhando como Gerente de Operações da ETIV do Brasil.

Moro na “Passagem”, o humilde bairro de pescadores às margens do Rio Das Contas, onde desenvolvemos nossos projetos de Empoderamento Feminino, Educação (Aulas de Inglês e Meio Ambiente), Desenvolvimento da Juventude, e Conservação Ambiental, dentre outros.

Através desta experiência, que tem sido absolutamente incrível tanto pessoal quanto profissionalmente, tenho tido a chance de acompanhar de perto a realidade das nossas alunas e alunos. E quanto mais tempo passo aqui, mais aprendo sobre as diversas e hercúleas dificuldades que estas crianças encontram pelo caminho.

São crianças que vêm de lares sem o menor tipo de suporte e apoio emocional; filhas e filhos de pais que trabalham como burros de carga por salários de miséria - e que muitas vezes gastam o pouco que recebem com drogas e álcool; crianças que dormem no chão, amontoadas umas às outras; crianças cujos cabelos repletos de piolhos sempre contrastam com os estômagos vazios…

Crianças de sete, nove e até onze anos que não sabem ler nem escrever; que não podem ir à escola porque precisam trabalhar para ajudar no sustento da casa. Crianças sem qualquer tipo de acesso a bens culturais, que crescem nas ruas, brincando com jogos rudimentares. Crianças que muitas vezes não podem ir às aulas porque os pais não têm dinheiro para o uniforme, para materiais escolares.

Crianças com dentes repleto de cáries e doenças intimamente ligadas à situação de extrema pobreza na qual vivem.

Como esperar, então, que estas crianças possam competir em situação de mínima igualdade com as que “tiveram a sorte” de nascer em famílias com melhor estrutura financeira e emocional? Porque, infelizmente, vivemos numa sociedade em que o CEP de onde nascemos diz praticamente tudo sobre a vida que teremos…

Como esperar que elas tenham o mesmo desempenho escolar? O mesmo desempenho no ENEM? Como esperar que consigam entrar em boas e públicas universidades, cujos processos seletivos são tão concorridos? Aqui, preciso fazer uma menção de agradecimento a Lula por ter sido o primeiro a criar programas que de fato permitiram o acesso da população negra e pobre ao ensino superior!

Me corta o coração ver crianças vivendo uma vida sem esperança, sem quaisquer perspectivas de melhoras ou avanços significativos; eternamente presas num ciclo de pobreza e não-acesso a bens e serviços que, para nós, “privilegiados”, são tão naturais que os tomamos como garantidos, certos.

Claro que, eventualmente, alguém, especialmente através da Educação, pode quebrar este ciclo e avançar socialmente, e é justamente por acreditar no poder emancipatório e transformador da educação (Paulo Freire vive!) que estou aqui tentando fazer o melhor que posso.

No entanto, é impossível às vezes impedir que a tristeza, a revolta e até o pessimismo atravessem a armadura psicológica e emocional que devemos criar para trabalhar em contextos de tamanha injustiça socioambiental.

Mas a verdade é que não podemos desanimar, e a luta por justiça social e ambiental é eterna. Jamais se acabará. Nossos filhos, infelizmente, estarão lutando pelos mesmos direitos humanos que hoje guiam a nossa luta por um mundo melhor.

Seria mesmo radical, coisa de “esquerdopata comunista” sonhar com mundo no qual todos, não apenas uma seleta minoria, possam viver com dignidade e ver atendidas suas necessidades básicas?

Honestamente, não me parece que isto seja radical. Ao contrário, radical e inaceitável me parece um modelo de sociedade no qual a fortuna de uns poucos esteja baseada no flagelo de milhões e num predatório e insustentável uso dos nossos recursos naturais.

Um mundo melhor é sim possível.

Que possamos, juntos, torná-lo realidade.

Bernardo Salce