Mais empatia, por favor

 Crianças brincam na praia em Tacloban, Filipinas.

Crianças brincam na praia em Tacloban, Filipinas.

E M P A T I A.

Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa. 

Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem. 

É uma ilusão pensar que fotografias são feitas com a câmera...elas são feitas com os olhos, com a cabeça e com o coração.
— Henri Cartier-Bresson

Ao longo dos últimos anos, a minha câmera tem sido o meu passaporte para um fantástico mundo de explorações e descobertas nos mais diversos cantos do mundo. Mais do que simplesmente fotos, o que minha câmera me dá, em essência, é a possibilidade de descobrir culturas e me conectar com pessoas que ensinam e me inspiram a ver a vida com olhos cada dia mais recheados de empatia.

Esta é parte da beleza de toda a literatura. Você descobre que seus anseios são anseios universais, que você não está solitário e isolado de ninguém. Você pertence.
— F. Scott Fitzgerald

Uma empatia que começou a ser construída, na verdade, muitos anos antes, através da leitura dos muitos livros que tive a sorte de ter em casa graças à minha mãe. "Robinson Crusoé" e "Dom Quixote" foram os primeiros deles. Muitos outros viriam - e continuam a vir - a seguir. 

Em 2014, quando resolvi sair do Brasil para descobrir/construir minha identidade como fotógrafo, meu primeiro destino foi Tacloban, nas Filipinas, uma pequena cidade que, seis meses antes, havia sido destruída pelo Furacão Haiyan, o mais mortal já registrado no país. Apenas em Tacloban, 10 mil pessoas perderam suas vidas. Milhares de outras perderam suas casas e todos seus pertences. 

Quando cheguei, depois de um curto vôo desde a capital Manila, não sabia muito bem o que esperar. Imediatamente vi, ali mesmo no aeroporto, que havia muito trabalho ainda a ser feito para reconstruir a cidade. O cenário, mesmo muito tempo depois da tragédia, era ainda chocante. Famílias ainda estavam a viver em barracas rudimentares providenciados por ONGs internacionais que já haviam ido embora.

Na manhã seguinte, quando encontrei com meu contato local e saímos para conversar com os moradores das áreas mais afetadas, não sabia ainda que ângulo tomar com o trabalho de documentação fotográfica que eu esperava produzir. O que, de fato, quero mostrar? Que mensagem quero transmitir? 

Bastaram umas poucas conversas para que eu já tivesse as minhas respostas. Muito embora eles ainda tivessem enfrentando enormes dificuldades, eles a enfrentavam com incrível resiliência, cooperação, fé e alegria. Estava aí a mensagem que eu queria que minhas imagens transmitissem. 

Eu não queria retratá-los meramente como vítimas; ao contrário, eu busquei celebrar a força com a qual eles, juntos, lutavam contra as adversidades - sempre com um sorriso no rosto.

 Um inesquecível almoço em Tacloban, Filipinas.

Um inesquecível almoço em Tacloban, Filipinas.

Jamais irei me esquecer do dia em que, enquanto deambulava fotografando alguns pescadores, um deles me chamou pra almoçar com sua família onde antes era sua casa.         

Ali estavam eles, depois de terem perdido tudo o que haviam levado anos para construir, compartindo o pouco que tinham comigo, um estrangeiro com câmeras caras e certamente, naquele momento, com mais dinheiro do que eles. Mas é justamente isto o que venho comprovando ao longo destes anos na estrada: normalmente, os que menos possuem em termos materiais são justamente os que mais genuína solidariedade mostram...

Após duas inesquecíveis semanas em Tacloban, regressei à Manila, onde documentei o trabalho de uma organização local trabalhando para criar oportunidades de ensino e trabalhos para jovens em Tondo, uma das áreas mais pobres da cidade e onde crianças e famílias inteiras trabalham numa precária indústria de carvão. 

 Criança trabalhando em Tondo, Manila.

Criança trabalhando em Tondo, Manila.

Jamais havia visto tanta pobreza, tantas pessoas vivendo sem acesso algum aos mínimos serviços básicos que todos nós temos como garantidos, todos os dias.

Mesmo assim, não perdiam o sorriso no rosto, e nem mesmo a sujeira do carvão que cobria seus rostos era capaz de esconder a dignidade que brilhava através de seus olhos.

No Camboja, onde morei por pouco mais de dois anos, continuei tentando utilizar a fotografia como ferramenta de educação sobre questões ambientais, sociais e humanitárias, o que, invariavelmente, me deu a oportunidade de conhecer pessoas que me ensinaram, inspiraram e mostraram, ainda que não o soubessem, como os meus problemas - "problemas do primeiro mundo" - não são, na verdade, problemas assim tão graves...

   Huot Sarom  , hoje com mais de 70 anos, símbolo da resistência no Camboja

Huot Sarom, hoje com mais de 70 anos, símbolo da resistência no Camboja

Veja, por exemplo, o caso de Huot Sarom, hoje com 73 anos, um símbolo Cambojano de resistência às violações de direitos humanos cometidas pelo próprio governo Cambojano. Por não querer vender sua terra para o governo a preço de bananas, sofreu ameaças e literalmente apanhou de vizinhos que já haviam vendido suas propriedades para os (corruptos) políticos locais.

Determinada, e com a ajuda da ONG para a qual eu estava trabalhando, ela não desistiu e seguiu lutando pelo respeito aos seus direitos. 

 Mouen posa para uma foto em frente ao local onde mora, aos arredores de um lixão afora de Phnom Penh.

Mouen posa para uma foto em frente ao local onde mora, aos arredores de um lixão afora de Phnom Penh.

Ou ainda a história de Mouen, um dos milhares de Cambojanos que foram ilegal e forçadamente despejados de suas propriedades aos arredores de um lago no centro de Phnom Penh (vendido a uma empresa Chinesa para construir um luxuoso complexo comercial e residencial). 

Forçado a viver nas cercanias de um lixão fora da cidade, caiu de uma palmeira enquanto coletava folhas para fazer o teto de sua casa. Levado ao hospital com a ajuda dos vizinhos, foi deixado literalmente no chão, por uma semana, sem qualquer atendimento, por não ter dinheiro para pagar as "taxas" cobradas por médicos preocupados mais com dinheiro do que com a saúde humana.

Salvo quando uma ONG local descobriu seu caso, Mouen se recuperava bem quando o fotografei, já conseguia caminhar, ainda que com certa dificuldade, e, com a ajuda desta mesma organização, estava fazendo sabonetes orgânicos para vender, com a ajuda de sua esposa. Sempre com um sorriso no rosto, certa vez quando conversávamos, perguntei-lhe se ele mudaria alguma coisa em sua vida. "Não, jamais. Eu não mudaria nada", ele me respondeu.

 Jaisalmer, India

Jaisalmer, India

Ao longo da minha experiência na Ásia, e das viagens que fiz por lugares como China, India, Vietnam, Laos, Timor Leste e Tailândia, foram várias as experiências que me mostraram que, muito embora façamos as coisas de maneiras distintas - e que bom que assim o seja -, somos todos, em essência, iguais. Buscamos todos as mesmas coisas: amor, felicidade, segurança, um lugar pra morar, comida na mesa e uma ideia de sentido na vida. 

[...] a minha maior habilidade tem sido querer pouco.
— Henry David Thoreau

Aprendi a confiar em estranhos, a vê-los não como potenciais ameaças, mas como potenciais amigos. Descobri que rico é, na verdade, aquele que sabe ser feliz com pouco. Me dei conta de que a vida reside apenas no presente; o passado já foi, o futuro sequer sabemos se um dia se tornará presente. Compreendi que, sozinhos, não somos nada: somos o resultado de nossas interações com o mundo ao nosso redor, de modo que, nos caminhos da vida, não se pode caminhar sozinho...somos todos indissociáveis uns dos outros...

Por isso, me parece estranho ouvir sobre muros destinados a nos dividir quando, na verdade, portas é que deveriam estar sendo abertas para nos conectar...

Em 2016, inspirado pelo livro "As Veias Abertas da América Latina", do mestre Eduardo Galeano, passei meses viajando em bicicleta entre Colômbia, Equador e Peru. Foram os dias mais felizes da minha vida. A liberdade plena e, sobretudo, os especiais encontros com tantas pessoas generosas e solidárias pelo caminho.

 Com Pedro e sua bela família em Isinliví, Equador

Com Pedro e sua bela família em Isinliví, Equador

Incontáveis foram as vezes em que completos estranhos pararam seus carros pra me dar água, comida; me convidaram para dormir em suas casas ou acampar em seus jardins. Como esquecer do humilde motorista de tuktuk em Peru, que me deu U$2 como ajuda para eu seguir viagem...

Como esquecer de Pedro e sua família...já era tarde do dia, eu já estava exausto, mas ainda faltavam umas 2-3 horas de pedalada até chegar onde eu pretendia dormir naquela noite...de repente, um carro parou. Conheci Pedro, também um entusiasta pelas bicicletas.

Conversamos um pouco, ele me deu água, e ele partiu....15 minutos depois, o vi regressando. "Vamos, estamos indo pro mesmo lugar, coloque sua bicicleta aqui no carro e vamos com a gente", ele disse. Impossível recusar.

Chegando a Isinliví, o ajudei a descarregar um caminhão de madeira num terreno que pertencia à sua família, e depois, como se não bastasse a generosidade em me dar uma carona, ele ainda me convidou para passar a noite com eles na pequena propriedade rural onde sua mãe mora. Foi uma noite inesquecível. Comida típica feita num fogão a lenha, cervejas, música e muita conversa.

 Antes mesmo que eu lhe perguntasse, a dona de um pequeno bar na costa Peruana me ofereceu seu espaço para acampar ali mesmo na praia. "Ficarei de olho para que nada lhe passe", ela me disse.

Antes mesmo que eu lhe perguntasse, a dona de um pequeno bar na costa Peruana me ofereceu seu espaço para acampar ali mesmo na praia. "Ficarei de olho para que nada lhe passe", ela me disse.

Na manhã seguinte, acordei com galinhas dentro do quarto. Em cima da mesa, Pedro, antes de partir, havia deixado água, bananas, e um mapa da rota que eu deveria tomar.

Por tudo isso, e depois de vivenciar e receber tantos gestos de autêntica solidariedade ao longo dos últimos anos, em tantos cenários diferentes, fico mesmo triste ao ler notícias, comentários e posicionamentos políticos que refletem profundos individualismo e egoísmo. Falta de solidariedade, empatia e compaixão.

"De onde surgiu tanto ódio?", é a pergunta que me faço quando, estupefato, leio posts nas mídias sociais - muitos deles, inclusive, de pessoas com as quais passei anos estudando. Muitos parecem tão sufocados por sentimentos negativos que mal conseguem ver a vida em toda a sua beleza e complexidade. 

Somos todos iguais. Somos todos parte de uma grande e diversa família. Temos todos o dever de cuidar para que esta coexistência seja harmoniosa - para uns aos outros, e também para este maravilhoso planeta que temos a sorte de habitar.  

Lembro de uma vez em que conversava com a família muçulmana que me hospedou por alguns meses quando cheguei à África do Sul, em 2009. Conversávamos sobre diferentes culturas, diferentes maneiras de ver a vida quando meu host father disse: "Meu filho, somos todos peças do mesmo tecido. O que faço a ti, faço a mim mesmo".

Precisamos de muita coisa no Brasil para, enfim, podermos realizar os direitos e objetivos assegurados na Constituição Federal de 1988. Empatia, seguramente, é uma delas. 

Empatia para acabar com bravatas sobre meritocracia, que, no cenário brasileiro, não passa de um discurso criado e sustentado por aqueles que não querem reconhecer, muito menos perder, os privilégios históricos que possuem.

Empatia para enfrentar e combater um racismo histórico e profundamente arraigado na nossa sociedade, que faz com que grande parte da classe média reclame do mais carente que recebe R$100 reais pra manter o filho na escola; mas se cale sobre o rico juiz de direito que, além de receber R$20 mil/mês, ainda recebe "auxílio-moradia" muitas vezes de mais de R$5 mil. Racismo que tira a vida de milhares de jovens negros, todos os dias, num genocídio brutal e "silencioso".

 Pai e filho, Phnom Penh, Camboja.

Pai e filho, Phnom Penh, Camboja.

Empatia para que ideias sobre justiça social, igualdade e oportunidades de fato para todos não pareçam assim objetivos tão "revolucionários". A pergunta deveria ser: "Por que aceitamos, passivamente, um sistema que, para beneficiar uns poucos, sacrifica a grande maioria, levando junto o ambiente e os recursos de que necessitamos"?

Me recordo dos tempos em que Lula era presidente, e os ricos e grande parte da classe média reclamavam dizendo que "os aeroportos estavam parecendo mais rodoviárias". Ora, então quer dizer que os pobres não tem o direito de avançar social e economicamente, ter uma vida mais digna? Diz o artigo 3 da CF/88:

"Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Depois do golpe que tirou Dilma da presidência, a CF/88 já parece não estar valendo muita coisa, mas, acredito, estes são sim objetivos que valem a pena ser perseguidos - e conquistados. Grande parte da classe média brasileira, cega de veneração pelo rico e preconceito com o pobre, não percebe que, na maioria das vezes, as medidas que apoiam ou modelos de governo que defendem não lhe trazem benefício algum.

Adoram, por exemplo, a segurança na Europa - fruto de maior justiça social, menos desigualdades, mais oportunidades para todos, mais programas sociais. No Brasil, contudo, querem manter sua posição de superioridade, e chamam de "comunista" ("Vai pra Cuba!") qualquer medida que busque equilibrar, ainda que minimamente, cenários de histórica desigualdade.    

Como avançar, então, num momento marcado por extrema divisão, extremo individualismo? Como chegamos ao ponto em que uma candidatura como a de Bolsonaro sequer seja possível?

Amor e compaixão são necessidades; não são um luxo. Sem eles a humanidade não pode sobreviver
— Dalai Lama

Num terreno perigosamente marcado pela intolerância, pelo preconceito e por uma visão binária que estraçalha toda a complexidade dos fenômenos da vida, precisamos urgentemente utilizar a E M P A T I A como uma ferramenta para resgatar, e manter viva, a nossa humanidade, promovendo sentimentos de compaixão, solidariedade, cooperação, humildade e gratidão

Se eu sou um defensor de qualquer coisa, é do mover. O mais longe que puder, pelo máximo de tempo que puder. Do outro lado do oceano, ou simplesmente do outro lado do rio. O fato de que você possa ‘caminhar nos sapatos de outra pessoa’, ou pelo menos comer sua comida, é uma vantagem para todos. Abra sua mente, levante-se do sofá, mova-se.
— Anthony Bourdain

Para cultivar a empatia, é preciso estimular uma genuína curiosidade sobre os outros, sobre outras culturas; o que pode ser construído através de leituras e viagens. Mas não viagens que se resumam a resorts e atividades meramente turísticas. Viagens com o intuito, de fato, de conhecer e aprender com o outro. Ter a humildade para ouvir e, quem sabe, mudar de opinião. Fazer mais trabalhos comunitários e voluntários. Tudo começa, entretanto, com um genuíno reconhecimento de que podemos melhor, de que podemos ser mais. Somos seres em eterna construção.

É preciso celebrar as "pequenas" coisas na vida. Mais simplicidade. A felicidade não está lá na frente, muito menos em coisas materiais. Está, ao contrário, dentro de cada de um nós, muito embora às vezes esteja escondida em algum lado. Não tenho dúvidas de que só se constrói felicidade através de gratidão, de empatia, de solidariedade e de um sentimento de pertencimento à vida, e aos demais.  

 Crianças brincam numa praia em Kep, Camboja. 

Crianças brincam numa praia em Kep, Camboja. 

Muitas vezes, quando converso sobre estes temas com amigos e conhecidos, muitos me chamam de utópico e sonhador. Dizem, os sem esperança, que "um mundo justo e repleto de empatia jamais será possível". 

Para eles, e para todos os demais que possam pensar desta maneira, eu menciono Eduardo Galeano, quando ele diz:

"A utopia está no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos, o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve, então, a utopia? Serve justamente para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Que juntos, então, caminhemos.

Bernardo Salce