Um elogio à simplicidade: minha primeira semana em Itacaré, Bahia

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Quando ter menos significa, na verdade, ter mais…

Uma brisa fresca chacoalha os coqueiros que pintam de verde toda a rua que agora chamo de minha. Beija-flores batem asas apressados. Pequenas embarcações pesqueiras navegam nas águas do Rio das Contas. Pescadores, descalços, sem camisa, caminham com sua tradicional resolução misturada com tranquilidade. Três cavalos, dois marrons como a terra que cobre a rua,, e um branco como as nuvens que agora decoram o céu azul, pastam nos gramados em frente às casas. Minha rede balança suavemente, acompanhando o ritmo de vida relaxado desta comunidade que agora chamo de minha.

Estou em Itacaré, Bahia, uma pequena cidade de história centenária, famosa internacionalmente por suas belezas naturais, que incluem rios, cachoeiras, manguezais, florestas que se encontram com praias desertas que mais parecem cenários de Robinson Crusoé; outras, te transportam para o fantástico mundo de Jurassic Park

Cheguei aqui na semana passada, depois de uma longa e exaustiva jornada que incluiu 6 voos e uma viagem de carro de 2 horas desde Ilhéus. Quando cheguei a Itacaré, fui recebido com um belo jantar organizado pelos voluntários da ETIV, organização não-governamental da qual sou agora Gerente de Operações.

Não estava muito feliz nos Estados Unidos. Me sentia deslocado, fora do meu habitat natural. Sentia um indigesto incômodo dentro de mim…os quase dois anos que passei em San Diego com Alejandra e Otto foram sim especiais, repletos de momentos e viagens inesquecíveis, além de muito aprendizado, mas, do fundo do meu coração, eu sabia que não pertencia àquele lugar…

Por isso, não pensei duas vezes quando me ofereceram esta oportunidade em Itacaré. Aqui, pensei, eu poderia encontrar tudo aquilo que eu tanto buscava: tranquilidade, simplicidade, hospitalidade, amabilidade, boa comida, muita natureza, e uma cultura rica e colorida que, eu estava seguro, seria um verdadeiro paraíso para minha fotografia. Estou aqui há apenas uma semana, mas já não tenho dúvidas: foi a melhor decisão que poderia ter tomado.

Aqui, sinto que levo uma vida completamente alinhada aos meus valores, à minha maneira de ver a vida…Sou responsável por uma casa que recebe voluntários do mundo todo, que chegam aqui para trabalhar em vários projetos comunitários e ambientais, realizados aqui no Bairro Passagem.

O que muitos chamariam de pobreza ao chegarem aqui, eu prefiro chamar de resiliência, solidariedade, comunidade…

Já conheço todos os vizinhos, a grande maioria com apelidos engraçados, como “Tripa”, um senhor magro e esguio como um bambu, sempre trajando nada mais que calções coloridos e seus óculos fundo de garrafa. Passa os dias sentado em frente ao seu pequeno boteco, tomando cerveja e compartilhando histórias e risadas.

Há também o “Seu Bigode”, um moreno forte como madeira, com mãos que parecem de um deus marinho, e um bigode tão devidamente aparado que chega a parecer falso. Ele passa quase todas as noites pescando no Rio das Contas, e o que consegue, no dia seguinte, vende na feira.

Sinto-me em paz, sereno, feliz - e minha felicidade será ainda mais completa quando Aleja e Otto chegarem. De uma coisa eu tenho certeza: vai ser muito difícil querer sair daqui um dia…a sensação é que estou num mundo diferente, que segue outro ritmo, longe do barulho, da falta de tempo e da eterna busca das cidades que trazem nada mais do que frustrações, preocupações e um senso de sufocamento…

Em Itacaré, levo entre 10 e 15 minutos para atravessar toda a cidade na minha bicicleta cargueira, pintada grotescamente de preto fosco por “Lucas”, o dono da loja de bicicletas onde a comprei. Aqui, todas as pessoas estão sempre sorrindo, alegres; sempre abertas para conversar com os outros…a energia é leve, calorosa, contagiante…

Há sempre alguém chutando uma bola em algum lado, estou há uma semana sem usar sapatos, apenas chinelos, e o pôr do Sol é sempre seguido por uma salva de palmas pelos locais e turistas que se acomodam nas rochas de um mirante próximo à Praia do Concha. E a comida…ah a comida…que saudades eu estava do sabor da nossa riqueza e diversidade culinária…

Para colocar a cereja no topo do bolo nestes meus primeiros dias aqui, minha mãe, que não vejo há 3 anos, chega aqui na segunda-feira…não preciso dizer o quão especial vai ser reencontrá-la…

Aqui em Itacaré, posso não ter acesso à grande maiorias das coisas que estavam facilmente disponíveis em San Diego, na California, sobretudo as materiais; o que tenho aqui, contudo, vale muito mais pra mim. Menos, aqui, significa pra mim muito mais do que o muito que eu tinha em San Diego

Afinal, como disse Thoreau, a vida é estilhaçada pelo detalhe…simplifique, simplifique, simplifique…

Carpe Diem!

Bernardo Salce