No 'Vale Da Morte', reflexões sobre a vida e a família

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O Sol começava a cair quando ainda serpenteávamos por uma estrada curvilínea em direção ao Death Valley National Park, localizado a cerca de cinco horas de San Diego. Engolfados pela escuridão quase assustadora que cobriu aquela paisagem inóspita tão logo o Sol se escondeu por detrás das montanhas, seguimos nosso trajeto de certa forma ansiosos para enfim chegarmos ao nosso destino final. 

Eram apenas 7 da noite, véspera de Ano Novo, não tínhamos sinal em nossos celulares e estava tão escuro que os faróis do carro pareciam não ter qualquer utilidade. O céu, que parecia estar de luto, estava tão negro que escondia até o brilho das estrelas que tentavam aparecer. Otto dormia no porta-malas, Alejandra trabalhava como minha co-pilota, conferindo o mapa e chamando a minha atenção para alguns buracos e irregularidades na estrada, e eu seguia tentando dominar meus pensamentos e me concentrar na direção...

Revolvendo na minha cabeça, lembranças e memórias da minha querida Tia Fádua, que infelizmente havia falecido naquele mesmo dia, poucas horas antes de partirmos para a última parte da nossa viagem. Recebi a notícia quando comprávamos comida no último povoado antes de entrar no deserto e, imediatamente, me senti dominado por uma convulsão de pensamentos que me levaram de volta à minha infância e me fizeram refletir sobre o preço muito alto que pagamos por querermos conhecer o mundo: a distância da família... 

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Claro que não me arrependo de ter saído do Brasil, da minha zona de conforto, para ver com meus próprios olhos todos os lugares que antes ocupavam apenas as páginas dos livros que eu lia e dos filmes que eu assistia (muitos deles na companhia da minha mãe, no cinema ou em casa...). Conheci, e sigo conhecendo pessoas maravilhosas; uma delas, hoje, a minha esposa; sigo explorando lugares fantásticos, venho desenvolvendo a minha linguagem fotográfica e, ao longo do caminho, venho tentando crescer como pessoa.

Viajar e desbravar o desconhecido, com a mente e o coração abertos, de fato nos engrandece, e nos mostra, das mais variadas formas, o que realmente importa na vida...

E é justamente aqui que surge o dilema: como conciliar a curiosidade em conhecer o mundo com o desejo de desfrutar e passar mais tempo com a nossa família?  

À medida que o tempo vai passando e sigo perdendo os aniversários, as festas de Natal e fim de ano, os carnavais, as viagens em família, os "pequenos" momentos diários que na verdade criam memórias e lembranças que duram toda uma vida, me pergunto se já não seria o momento de fazer o caminho de volta para "casa"...

Claro que a tecnologia e as mídias sociais ajudam a amenizar as saudades - na verdade, muitas vezes elas acabam apenas por aumentá-las -, mas não há nada que se compare ao convívio de fato, ao abraço apertado...a última vez que estive no Brasil foi há dois anos, mas a sensação que tenho é que já se passaram décadas...

Foi em meio a este turbilhão de sentimentos que, finalmente, chegamos ao local onde passaríamos a nossa primeira noite. Dormimos no carro mesmo. Por sobre os bancos traseiros já reclinados, um colchão sobre o qual Otto já deitava imponente. Nos aconchegamos todos, abrimos uma garrafa de vinho e, enquanto admirávamos as estrelas que agora adornavam o céu, apreciamos o silêncio do deserto e da noite...

Na manhã seguinte, levantamos antes mesmo do Sol nascer para chegarmos a tempo ao local onde fiz a foto que abre este post. O amanhecer foi menos colorido do que o esperado; cinzento, triste, pareceu melancólico...

Nosso filho de quatro patas Otto, das ruas da Colômbia para o mundo

Nosso filho de quatro patas Otto, das ruas da Colômbia para o mundo

Passamos o restante do dia explorando alguns dos principais atrativos do parque. Terra de extremos e ocupando uma área de aproximadamente 7,800 quilômetros quadrados, Death Valley deve seu nome às temperaturas infernais que podem chegar a exorbitantes 57 graus Celsius. Badwater Basin, o ponto mais baixo da América do Norte, fica a 86 metros abaixo do nível do mar. Dante's View oferece uma impressionante vista panorâmica do vale desértico, que, ao contrário do que aparenta, abriga uma enorme diversidade de vida animal e vegetal.

É realmente incrível ver o poder adaptação da Natureza e a sua capacidade de florecer até em lugares que, num primeiro e descuidado olhar, parecem querer proibir qualquer tipo de manifestação da vida...      

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Assistimos ao pôr-do-Sol nas incríveis dunas de areia de Mesquite Flats, antes de, uma vez mais, encontrarmos um lugar onde parar o carro para passarmos a noite...cansado, Otto roncava como um leão. Aleja e eu celebramos comendo macarrão e tomando um champanhe que havíamos comprado no dia anterior...

Em meio ao silêncio e à vastidão daquela paisagem lunar, meus pensamentos foram de encontro à minha mãe, ao meu pai, aos meus irmãos, aos meus primos e tios, aos meus amigos de infância com os quais cresci chutando bolas e jogando video-game...

Lembrei do quanto minha mãe trabalhou para conseguir nos criar e educar, do quanto ela nos ensinou - e segue ensinando; pensei em meu pai e nos domingos de manhã que ele deixava de ver a Fórmula 1, uma de suas paixões, para nos levar para jogar futebol; me recordei de todas a brincadeiras com meus irmãos durante a nossa infância, me senti afortunado ao pensar na amizade que temos, algo pelo qual meus pais sempre prezaram. 

Lembrei de Lúcia, que por tantos anos ajudou minha mãe a manter a casa. Nossa "segunda" mãe. Relembrei dos amigos de escola, de faculdade, e de todos os momentos que passamos juntos; pensei em meus queridos tios e primos, com os quais passei momentos que para sempre estarão gravados em minha memória. Recordei da minha maravilhosa Vó Negrinha, de seus olhos verdes, elegância, amorosidade e paixão pelo futebol; e do meu avô paterno Lúcio, falecido em 2016 precisamente no dia do meu aniversário...  

Alejandra lendo Gabriel García Marquez em seu iPad

Alejandra lendo Gabriel García Marquez em seu iPad

Pensei em todos que, não importa em que medida, e ainda que inconscientemente, me ajudaram a tornar quem eu sou hoje. Naufragando num mar de saudades e nostalgia, senti os meus trinta e dois anos passando como um flash pela minha cabeça, como se eu os estivesse vendo, em detalhes, através da tela de uma televisão...  

Na hora da virada, nada de fogos ou shows pirotécnicos; apenas o uivar dos coiotes, a sinfonia do vento que chicoteava a vegetação e o brilho das estrelas - uma delas, sem dúvida, a minha tia Fádua, que agora está lá no alto, olhando por nós e reluzindo intensamente com a sua alegria e com seu coração maternal que mal cabia em seu peito...   

 

Bernardo Salce

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