A cerca

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Quatro são as principais fontes de inspiração para o livro que estou escrevendo:

1 - O desastre em Mariana;

2 - O desrespeito aos direitos humanos; a injustiça ambiental e a degradação social, cultural e ecológica resultantes da mineração na região da La Guajira, na Colômbia;

3 -  Tudo o que venho vendo e escutando ao longo de minhas viagens pelo mundo nos últimos anos;

4 - Entrelaçando e complementando as três primeiras, a minha imaginação e a minha forma de ver o mundo e a vida.

Fazendo uso do Realismo Mágico, conto a história de um pequeno povoado que tem o seu destino afetado com a chegada de um estranho forasteiro que decide abrir uma mina nas cercanias do vilarejo.  Muito embora haja personagens que possam ser chamados de principais, a narrativa é formada por pequenas histórias "independentes" que têm por objetivo, na verdade, mostrar com um pouco mais de riqueza e diversidade a vida na região.

Há, claro, um eixo principal que conduz a obra, mas, como num colorido mosaico, no qual as peças se encaixam para formar uma obra maior, as várias histórias que vão se entrelaçando servem para lhe dar mais profundidade e amplitude.    

Abaixo, compartilho uma delas, que trata da batalha sobre uma cerca que divide duas propriedades.    

 

 

Eu vou matar aquele desgraçado!, Seu Fulgêncio disse para si mesmo, segurando um facão, ao ver que, mais uma vez, seu vizinho Seu Macedônio havia movido a cerca que delimitava onde terminava o mundo de um, e onde começava o do outro.

Aquela era uma disputa que já durava gerações e que, para Seu Fulgêncio, significava muito mais do que ganhar ou perder um pedacito de terra; para ele, era a honra de seu nome e de sua família que estavam em jogo. 

Marido da Sra. Pascuala, que pedia a Deus todas as noites para que ele se esquecesse daquela maldita cerca, e pai de duas filhas que sonhavam em ter uma figura paterna que lhes desse mais atenção, Seu Fulgêncio, depois de décadas daquele desgraçado avançar e retroceder da cerca, havia chegado ao limite do que sua mente, seu corpo, seu coração, e sua honra poderiam suportar. 

Entorpecido por aquela discórdia que havia consumido toda a alegria de seu viver, naquela manhã cinzenta de quarta-feira, quando uma bruma misteriosa parecia brotar do relvado molhado, Seu Fulgêncio se convenceu de que a única solução para aquela tormenta seria tirar a vida de seu vizinho. 

Do outro lado, também marido de uma esposa que implorava a Deus todas as noites por um fim diplomático para aquela desavença, e também pai de duas filhas que, nos Natais, escreviam cartas nas quais pediam por um pai mais presente, Seu Macedônio viu, enquanto alimentava suas galinhas, o vizinho pular a cerca e caminhar, facão em punho, em direção à sua casa. 

Com um suspiro de quem já sabia que aquela seria a batalha final, Seu Macedônio se levantou apoiando em seus joelhos sexagenários, apanhou seu facão e partiu de encontro ao Seu Fulgêncio. A Sra. Pascuala, quando, ao chamar seu marido para o café-da-manhã, não obteve resposta, espiou pela janela da cozinha esperando o encontrar revirando as hortas que cultivavam. 

Quando o viu caminhando do outro lado da cerca, deixou cair o queijo que segurava. 

- Minha Nossa Senhora! - gritou, levando as mãos à boca. 

Ela apagou o fogo que mantinha aquecido o café que acabara de fazer e, ajoelhada sob o crucifixo de madeira ao alto da porta da cozinha, chorou enquanto rezava e suplicava a Deus que poupasse a vida daqueles dois pobres homens; muito embora o seu coração de mãe já lhe dissesse que daquele duelo não sairiam vencedores. 

Do outro lado, a esposa do Seu Macedônio, Dona Pomposa, também já chorava enquanto pedia a Deus que não levasse embora o pai de suas filhas. Na Escola Municipal, todas as quatro meninas, cada uma a seu modo, sonhavam com um pai que se preocupasse mais com seus sorrisos do que com uma cerca de arame. 

Quando Seu Fulgêncio e Seu Macedônio chegaram tão perto um do outro que um abraço teria sido muito mais exequível do que um golpe, a luta começou. Como gladiadores, os dois lutaram com toda a força que seus corpos ainda possuíam e gastaram todas as palavras que lhes restavam com juras de honra, família e justiça. 

Sobre a terra que lhes dava vida, e que mais tarde engoliria seus corpos mortos, os dois, exauridos, sujos de terra, de sangue e de vingança, caíram juntos, cada um atravessado pelo facão do outro. 

Quando uma revoada de pássaros coloridos voou para longe, e o céu cinzento desabou numa tempestade exasperada, as duas mães e esposas entenderam o que tinha acontecido. 

Ela se levantaram, lágrimas silenciosas escorrendo de seus olhos cor de tristeza, e fizeram uma última reza, pedindo perdão ao Criador em nome de seus maridos. Colocaram casacos para se protegerem dos ventos de luto que balançavam as árvores afora e saíram de encontro àqueles corpos imóveis. 

Quando chegaram, depois de uma caminhada na qual uma vida toda havia passado em seus pensamentos, elas se abraçaram. Juntas, choraram sob aquela torrente de dor, consternação e sofrimento que caía dos céus pintados de preto. 

Às seis da tarde daquele dia, sob um céu tomado por enormes pássaros escuros, Sra. Pascuala e Dona Pomposa, com a ajuda das filhas, enterraram seus maridos ao pé de uma árvore na qual, a partir daquele fatídico dia, elas se encontrariam todos os dias para rezar. 

No dia seguinte, enquanto as quatro meninas estavam na escola, elas derrubaram a cerca. 

 

 

Então, o que acharam? Por favor deixe seus comentários! :) Qualquer feedback agora é mais do que bem-vindo! 

À medida que sigo escrevendo (já são mais de 170 páginas escritas), seguirei compartilhando aqui alguns de seus capítulos...

Até breve!

 

Bernardo Salce

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