“The world as a nomad maze”, by Tiago Salge Araujo

I am happy and proud to share here with you this brilliant text written by Tiago, one of my brothers. 

He is a Geography teacher, an educator and a traveler that has already explored many parts of the world. I asked him to write something about the importance of traveling and this was what he gave me. One of the best pieces on traveling I've ever read. 

I hope you will enjoy it as much as I did. I found it so good that I'm gonna post it here both in the original Portuguese and in English. 

Enjoy!

“O mundo como labirinto nômade”

Tenho por hábito dar um título para tudo o que escrevo. Para mim é essencial e só assim consigo dar unidade a um determinado conjunto de ideias. O que por ora escolhi é uma clara referencia ao autor italiano Francesco Careri, que em sua obra Walkscapes- o caminhar como prática estética. (2002) nos apresenta um capítulo com o título que agora lancei mão.

Esclarecidas as aspas no título, enuncio agora alguns dos princípios desta minha contribuição para o site do meu irmão Bernardo. Se partirmos para um viés mais pessoal, todos seriamos capazes de relatar nossas mais bem aventuradas (e outras nem tanto) passagens.

Não me atreverei a fazer isso. Não pretendo escrever um texto autobiográfico puramente. Trata-se de uma reflexão acerca do “perder-se e aprender caminhar como nômades no mundo”.  Interessa-me mais refletir sobre as sensações que desbravar o mundo (externo e por consequência o interno) pode nos proporcionar. Como geógrafo e educador, compartilharei neste texto algumas de minhas experiências e pontos de vista no meio deste labirinto fantástico que chamamos de Planeta Terra.

Vaida Voivod, presidente da comunidade mundial dos ciganos em 1963, fez o seguinte pronunciamento : “Somos os símbolos viventes de um mundo sem fronteiras, de um mundo livre, sem armas, no qual qualquer um pode viajar sem limitações, das estepes da Ásia central às costas atlânticas, dos planaltos da África do Sul à florestas finlandesas”.  Ah, que maravilhoso seria se todos nós fossemos ciganos... Infelizmente, em pleno século XXI nos são impostas barreiras que parecem tentar dificultar sermos todos ciganos.

Trazendo aqui as ideias do geógrafo Milton Santos (em Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal de 2000). ; a globalização tem se revelado ao mesmo tempo uma fábula e uma perversidade, fábula pois nos querem fazer crer que o mundo se transformou em uma aldeia global (como o autor diz), perversidade pois estamos sendo massacrados por um sistema socioeconômico que abre possibilidades para poucos e esmaga tantos. Segundo este autor, por outro lado, os mesmos meios técnico-científicos-informacionais que tornam a globalização fábula e perversidade, podem darpossibilidade aos massacrados de fazerem-se notar pelo mundo, a globalização como possibilidade seria uma visão mais otimista da qual prefiro beber da fonte.

O sistema econômico epolítico impõe uma série de barreiras que dificultam alcançarmos este mundo indicado por Voivod, mas jamais podem ser tomadas como intransponíveis. É preciso quebrar essas barreiras, ou as driblar da melhor maneira.

Em minha trajetória, essas barreiras começaram a ser transpostas ainda na minha infância. Vivendo no Brasil, filhos de pais separados, eu e meus irmãos aprendemos sempre com nossa mãe que driblar as barreiras e conhecer lugares outros é possível e imprescindível.

Novas paisagens, novos cheiros, sabores e culturas sempre fizeram parte de nossas férias. Nossa mãe, uma guerreira professora brasileira procurou sempre nos mostrar que o mundo era bem maior que nossa casa, aliás ela sempre quis de certa forma nos dizer que o mundo era a nossa casa!  

O tempo passou e a vontade de caminhar, de se perder para se encontrar com o mundo (e com o mundo interior) só cresceu. Aos dezenove anos sai de casa para estudar geografia em uma cidade a 400km. A escolha do curso não foi uma aleatória, era latente a sede de conhecer o mundo!

Quatro anos e meio depois, não me bastavam mais as cartas geográficas de maneira estática, era necessário enxergar nelas um itinerário, uma odisseia. Foi aí então que parti para uma odisseia de dois anos no velho continente. Na Europa não conquistei  apenas o título de mestre, mais que isso, sensações e formas de se sobrevoar o mundo ficarame ficarão sempre impregnadas em mim. 

O caminhar passara a ser então o meu grande lema.  Robert Smithson, artista estadunidense expoente da corrente “land art” já dizia que “O caminhar condiciona a vista e a vista condiciona o caminhar a tal ponto que parece que apenas os pés podem ver”.  Acordar em Rotterdam e dormir em Paris, caminhar e percorrer toda a costa portuguesa, desfrutar da simplicidade e sabores do interior da França, me perder pelas noites espanholas, sentir nos pés e olhos as belezas da Saradenha....o que é um título perto de tudo isso? 

Sem falar nas pessoas...ah as pessoas.  Só se bate asas plenamente quando se está no coletivo, ou seja, bater asas sozinho não é conhecer o mundo plenamente. É preciso ouvir, sentir, aprender e doar-se ao próximo, que também anseia por voos mais longínquos. Viajar e perder-se sozinho nunca é estar só, ao contrário, na maioria das vezes é ai que se abrem as grandes possibilidades para um voo coletivo, para a troca e o contato mais intenso e genuíno.

Você pode estar se perguntando: e se eu não tiver meios para me perder como nômade numa jornada “transcontinental”, em um lugar totalmente desconhecido e longínquo? Caros, o “perambular” para se encontrar começa nos lugares mais próximos, no bairro nunca desbravado, na cidade vizinha por vezes menosprezada...é preciso se permitir, só assim o labirinto nômade vai se edificando.

Conheço pessoas que viajam para lugares fabulosos masque nunca se permitiram sair da zona de conforto, estão sempre em não-lugares (sugiro a obra de Marc Augé): aprisionados em resorts ou hotéis que mais parecem cárceres milimetricamente pensados para te manter distante do labirinto nômade.

Ou seja, entregar-se ao caminhar e às novas sessões e descobertas é necessário antes de tudo, querer olhar e caminhar mais além, em busca de um labirinto infinitamente rico, e ele pode começar bem perto de você. Não se permita enraizar-se, seja em lugares seja em sensações ou em concepções já experimentadas, crie asas e permita-se driblar as barreiras!


“The world as a nomad maze”

I give a tittle to everything I write. It’s the only way through which I can bring together a set group of ideas. The one I am using now, “The World as a Nomad Maze” is an explicit reference to the work of Italian author Francesco Careri, who has a chapter with this exact name on his book Walkspaces: Walking as an Aesthetic Practice.

Having explained the tittle of this essay, I will present now my contribution to this space. If we take a more personal perspective, all of us will have many stories to tell about our travels; many fortunate ones and others perhaps not that much. I will not do that, though. It’s not my goal to write a purely autobiographical text. Instead, I want to explore the idea of “getting lost and learning how to walk as nomads in the world”.

I am more interested in reflecting about the sensations that exploring the world (the external and consequently the internal also) can offer us. As a geographer and educator, I will share here some of my thoughts and experiences about this fantastic maze we call Planet Earth.

Vaiva Voivod, president of the international community of gypsies, said in 1963: “We are all living symbols of a borderless world, a free world, without arms, a place we can all travel freely, from the steppes of Central Asia to the Atlantic coasts, from the South African plateaus to the Finish forests”.

Oh…how wonderful would it be if we were all gypsies…unfortunately though, there are many barriers now in the XXI century that try to prevent us from being gypsies…Milton Santos, on his book "Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal", wrote that globalization has revealed itself as both as a fable and a wickedness.

A fable because it tries to make us believe that the world has become a global aldeia; a wickedness because we are all being massacred by a social-economical system that offers many possibilities for a few while smashing the majority. Nevertheless, Milton Santos also believes that the very same technical-scientific-informational means that make globalization both a fable and a wickedness can open possibilities for the oppressed to make themselves noticed, heard and seen by the world. This more optimistic perspective is the one I prefer to follow.     

Our economical and political systems do offer a series of obstacles that make it difficult for us to achieve this world envisioned by Voivod, but they cannot be seen as insuperable. It is imperative to break these barriers, or at least to avoid them the best way we can.

In my life, I began to overcome these difficulties already in my childhood. Living in Brazil, son of divorced parents, raised by a single mother, my brothers and I have learned from her since a very young age that seeing new places is not only possible but also fundamental.

New landscapes, new flavors and cultures have always been a part of our family vacations. Our mom, a passionate and hard-working Portuguese teacher, has always tried to show us that the world was much bigger than our house; actually, perhaps she was trying to show us that the world is in fact our home!

The desire to walk and get lost to find the world (also the one within myself) only got stronger as time went by. When I turned nineteen I left home to study Geography in a city 400 kilometers away from my hometown.

Studying Geography was not a random choice; it was the natural option for someone who wanted to discover the whole world. Four and a half years later, the static geographic carts were no longer enough for me; they needed to reveal more, an itinerary, an odyssey. That was when I left to a 2 years long journey in the Old Continent. In Europe I not only got a Masters diploma; much more than that. The sensations and everything I lived and experience there will be forever engraved on my soul.

Wandering became then my motto. Robert Smithson, the American artist who is exponent of the Land Art concept said: “O caminhar condiciona a vista e a vista condiciona o caminhar a tal ponto que parece que apenas os pés podem ver”. Waking up in Rotterdam and spending the night in Paris; explore the entire Portuguese coast; enjoy the tastes and simplicity of the French countryside; get lost in the Spanish nights; to feel under my feet and to see with my eyes (and my heart) the many beauties of Sardinia…what is a (studies) tittle compared to all of that?

Not to mention the people…ah the people…it’s only together that we can really fly; that is, by ourselves we can never see the world in all its majesty. We have to listen, to feel, to learn and to give ourselves to others; who are also hoping for longer flights…To travel and get lost by ourselves never means being alone; actually, it’s perhaps when we are alone that we have the most opportunities for a “collective flight” and more intense and genuine interaction with the local people and culture.    

You may be asking yourself: that all sounds wonderful but if I don’t have the (financial) means to get lost in a transcontinental journey, in a place faraway? My friends, wandering to find the world (and ourselves) begins in the closest places: in the neighborhood never before explored, in that sometimes underrated town just a few miles away…we must free ourselves because it’s only then that we will start building our “nomad maze”…

I know people that travel to wonderful locations and yet never leave their comfort zone, and their resorts. They are always in “no-places” (Marc Augé), locked inside hotels that seem to have been built exactly with the purpose of keeping them distant from the “nomad maze”.

So in order to throw ourselves into a journey of waling and discoveries, we first need the real desire to look beyond and explore further. An incredibly rich and diverse maze can begin right next to you. Do not allow yourself to be rooted in already experimented sensations and/or ideas. Build yourself wings and fly over the barriers!

Tiago Salge Araujo

Lover of Nature, Mankind, Walking and the many mazes of the world. Master in Education, Psychology and Education Sciences Faculty, Porto University, Portugal. Geography Degree, UNESP, Rio Claro-SP, Brazil


These are some of his pictures from his travels around the world. I'm happy I was with him in some of them and I hope there are still many more to come...we can never stop building our "nomad maze", after all...

I found his text absolutely accurate and beautifully written. I do relate and agree with every single word he wrote. How about you? What's your "nomad maze"? I'd love to hear about it. Feel free to share your stories here...

I will be back here soon...

My best,

Bernardo Salce